João 20:17

Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi para o meu Pai; porém vai a meus irmãos, e dize- lhes: Subo para meu Pai, e para vosso Pai; para meu Deus, e para vosso Deus.

Comentário de Brooke Westcott

Não me toques, pois ainda não subi … – As palavras sugerem, conforme algumas cópias interpoladas indicam, que Maria se lançou rapidamente em direção a Cristo, talvez para segurar Seus pés (compare com Mateus 28:9). A forma exata do verbo (μὴ ἅπτου) indica que ela já estava agarrada a Ele quando Jesus falou. Assim, sua reação expressa tanto a intensidade de seu amor quanto sua limitação em compreendê-lo plenamente, algo que o Senhor corrige e eleva com Sua resposta. O motivo pelo qual o Senhor impediu essa expressão de devoção pode ser compreendido de maneiras diferentes. O “pois” pode se referir (1) a toda a sentença que segue (“Eu ainda não subi para meu Pai…”), ou (2) apenas à primeira parte (“Eu ainda não subi para meu Pai”). No primeiro caso, a ascensão iminente, ainda que não realizada, seria vista como um impedimento para as antigas formas de relacionamento terreno. No segundo caso, a ascensão seria apresentada como o início e a condição de uma nova união. Esta última interpretação parece ser, sem dúvida, a correta e se ajusta às circunstâncias morais do evento. Maria substituiu o conhecimento da humanidade de Cristo pelo conhecimento de Sua Pessoa completa: “O que vês, pensas que sou apenas isso; não me toques” (Agostinho, In Joh. 26:3). Ela acreditou que poderia desfrutar novamente da Sua presença restaurada da mesma forma que antes. Supôs que o retorno à vida antiga fosse o cumprimento completo da vitória de seu Mestre sobre a morte. Por isso, Jesus lhe diz essencialmente: “Não te agarres a mim, como se fosse possível me conhecer apenas por aquilo que vês e sentes fisicamente. Ainda há algo maior a ser realizado antes que essa comunhão plena seja estabelecida: ainda não subi ao Pai. Quando essa última vitória for consumada, então será possível experimentar essa comunhão eterna e verdadeira.” Santo Agostinho expressa isso bem: “Só é verdadeiramente tocado por aqueles que me tocam bem: ao subir ao Pai, permanecendo com o Pai, igual ao Pai.” (In Joh. 26:3). Entretanto, Maria recebe uma grande recompensa por seu amor: ela será a primeira a levar a mensagem da transformação gloriosa que estava por vir. Sua missão agora não era apenas anunciar a perda, mas proclamar a realidade da ressurreição e da ascensão. Esse episódio contrasta com a atitude de Tomé. Maria fica satisfeita com a forma terrena que reconhece, enquanto Tomé, que achava impossível a ressurreição corporal, vai além e chega ao reconhecimento completo da divindade de Jesus (João 20:28).

Não me toques – A ideia aqui não é apenas um simples toque físico, mas a tentativa de “segurar” Jesus, como se Maria quisesse retê-Lo e impedir Sua partida. Em outras ocasiões, Jesus convidou os discípulos a tocarem Nele para confirmar Sua realidade corpórea (Lucas 24:39; João 20:27; compare com 1 João 1:1).

Meu Pai – Os manuscritos mais antigos omitem o pronome, trazendo “o Pai”. Primeiro, Jesus apresenta o conceito geral da paternidade divina, que depois é especificado e distinguido.

Mas vai a meus irmãos … – O novo título “irmãos” (Mateus 28:10) surge a partir da relação estabelecida com o Pai. Agora, os laços espirituais têm primazia sobre os laços naturais. Compare com João 19:26 e Mateus 12:48-50. O título “irmãos” aparece significativamente na primeira ação da igreja primitiva (Atos 1:15).

Subo … – Não “subirei”, mas “estou subindo”. De certa forma, o processo simbolizado pela ascensão visível já estava sendo realizado ao longo dos quarenta dias, à medida que os discípulos se acostumavam com as manifestações da nova Vida de Cristo.

A mensagem que Maria deveria levar não era apenas de realização, mas também de promessa. Jesus não diz “Ressuscitei”, pois os discípulos ainda não compreenderiam plenamente esse significado. Em vez disso, Ele diz “Estou subindo”, indicando que a ressurreição era tanto um começo quanto uma consumação.

Para meu Pai e vosso Pai – O Pai é Pai de Cristo e Pai dos homens de maneiras distintas: Pai de Cristo por natureza, Pai dos homens por graça. Assim como Jesus se diferenciava dos homens mesmo ao afirmar Sua verdadeira humanidade ao se chamar “Filho do Homem”, aqui Ele distingue a filiação divina dos crentes da Sua própria. Compare com Hebreus 2:11 e Romanos 8:29.

Meu Deus e vosso Deus – Na Sua plena humanidade, Jesus chama o Pai de Seu Deus (Mateus 27:46). Compare com Apocalipse 3:2, 3:12.

Nas epístolas de Paulo, a expressão composta “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” é frequente (Romanos 15:6; 2Coríntios 1:3, 11:31; Efésios 1:3). Compare com 1Coríntios 15:24. [Westcott, aguardando revisão]

< João 20:16 João 20:18 >

Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – janeiro de 2021.