João 20:23

A quem quer que perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e a quem quer que vós retiverdes os pecados, lhes são retidos.

Comentário de Brooke Westcott

Os pronomes neste caso não são enfáticos. A ideia principal transmitida pelas palavras é a realidade do poder de absolvição dos pecados concedido à Igreja, e não a organização específica por meio da qual esse poder é administrado. Não há nada no contexto que indique que o dom foi restrito a um grupo particular (como os apóstolos) dentro da assembleia presente. Portanto, essa comissão deve ser entendida como a missão da comunidade cristã como um todo, e não apenas do ministério cristão. (Compare com Mateus 5:13, 5:14.) O grande mistério do mundo, absolutamente insolúvel pelo pensamento humano, é o pecado. A missão de Cristo foi trazer salvação do pecado, e a obra da Igreja é aplicar a todos aquilo que Ele conquistou. Cristo ressuscitado era, em si mesmo, o sinal da derrota completa da morte, do fim do pecado, e a comunicação de Sua Vida trazia necessariamente os frutos de Sua vitória. Assim, a promessa é, em certo sentido, a interpretação do dom. O dom do Espírito Santo se manifesta na concessão ou na retenção dos poderes da nova Vida.

A promessa, por ser feita não a uma pessoa, mas à comunidade, traz necessariamente, ainda que não explicitamente expresso, um caráter de perpetuidade, pois a comunidade nunca morre (compare com João 20:21). Nesse aspecto, a promessa é essencialmente diferente daquela feita a Pedro (Mateus 16:18 e seguintes, veja a nota), que era claramente pessoal. Além disso, o alcance dessa promessa difere da que foi dada anteriormente à comunidade (Mateus 18:18 e seguintes, veja a nota), pois esta tratava da formulação de regras e não da administração de algo puramente espiritual. Ao mesmo tempo, essa nova promessa eleva a anterior a um nível superior. Assim como a promessa anterior concedia o poder de estabelecer os termos da comunhão, esta confere um poder vivo e contínuo para declarar o fato e as condições do perdão. Essas condições, conforme interpretadas pela prática apostólica e pelo contexto, referem-se ao caráter (compare com Lucas 24:47). O dom, e a recusa do dom, são considerados em relação a grupos e não a indivíduos. O uso do plural na passagem (ἄν τινων, αὐτοῖς) sugere essa ideia, e ainda mais a necessidade de que “reter” tenha um significado correspondente ao de “perdoar”. É impossível conceber um exercício absolutamente individual do poder de “reter”; por isso, também não se deve interpretar a passagem como conferindo uma autoridade direta para um exercício individual absoluto de “perdoar”. Ao mesmo tempo, o uso desse poder deve estar intimamente ligado ao discernimento espiritual que vem com o dom do Espírito Santo (compare com 1 João 2:18 e seguintes).

Perdoar: Este é o único lugar no Evangelho de João onde a palavra aparece nesse contexto. Compare com 1 João 1:9 e 2:12. Nos Evangelhos Sinóticos, seu uso é mais frequente.

Perdoados… retidos: O uso do tempo perfeito nos dois verbos (ἀφέωνται, segundo a leitura mais provável, e κεκράτηνται) indica a eficácia absoluta do poder. Não há intervalo entre a ação e o resultado. Há perfeita harmonia e coincidência entre a voz divina expressa pela comunidade e a vontade divina.

Reter: Segurar firmemente, de modo que não passe daquele a quem se aplica. A palavra (κρατεῖν) é usada várias vezes no Apocalipse com o sentido de “reter a doutrina” e expressões semelhantes (Apocalipse 2:13 e seguintes, 2:25, 3:11). [Westcott, aguardando revisão]

< João 20:22 João 20:24 >

Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – janeiro de 2021.