De fato eu tenho vos batizado com água, porém ele vos batizará com Espírito Santo.
Comentário de Stewart Salmond
Qualquer que fosse a admiração com que era encarado pelos judeus, e qualquer que fosse o significado que lhe pertencia, o seu batismo, João deixava claro que era tão inferior ao que viria depois quanto ele mesmo era menor do que Aquele que estava por vir. O primeiro batismo usava a água, simbolizando a necessidade de arrependimento e servindo como um sinal de uma mudança interior; o outro era a realidade que efetivamente causava essa transformação. O segundo batismo era assim porque era um batismo “com (ou no) Espírito Santo”, operando por meio do Espírito ou dentro de sua esfera de ação. Dessa forma, podia alcançar a vida interior e atuar diretamente nas fontes do pensamento e da conduta, trazendo purificação e renovação. Do ponto de vista do Antigo Testamento, João não poderia ter em mente tudo o que entendemos hoje sobre o Espírito Santo. No Antigo Testamento, o Espírito Santo ainda não era plenamente revelado como a pessoa divina conhecida no Novo Testamento. O “espírito de Deus”, o “espírito do Senhor” e o “espírito de santidade” é o poder ou a energia de Deus, que aparece como o princípio que dá vida ao mundo e como a fonte dos dons concedidos a soldados, reis, artesãos e profetas. Também é apresentado em aspectos mais elevados, especialmente nos livros poéticos e proféticos, com características mais próximas de uma pessoa, sendo o guia e ajudador dos homens, a inspiração de suas vidas e a capacitação do Messias (Gênesis 1:2; Êxodo 31:3; Juízes 3:10; Jó 26:13, 33:4; Salmo 104:30; Isaías 11:2, 42:1, 59:21, 61:1, 63:10; Miquéias 3:8). A profecia anunciava que o derramamento do Espírito sobre toda a humanidade seria uma das características da era messiânica (Isaías 44:3; Ezequiel 36:25; Joel 2:28).
A natureza exata do batismo de João tem sido muito debatida. Rituais de purificação com água eram comuns em muitas religiões. Os judeus tinham suas próprias abluções e purificações com água, como a consagração dos sacerdotes (Êxodo 29:4) e a purificação de leprosos (Levítico 14:8). Também havia um rito específico para os prosélitos, que incluía a circuncisão, um sacrifício e uma purificação antes da oferta. Ainda é uma questão não resolvida se esse terceiro elemento do ritual existia antes da destruição de Jerusalém. Além disso, a lavagem em questão era realizada pelo próprio ofertante. Nos escritos dos grandes profetas e em alguns Salmos, as expressões usadas para essas abluções cerimoniais tornaram-se símbolos de processos e resultados morais (Isaías 1:16; Ezequiel 35:25; Zacarias 13:1; Salmo 51:4). O desenvolvimento que levou ao batismo de João seguiu essa linha. Ele se diferenciava das purificações anteriores por exigir uma transformação interior profunda, representada pelo arrependimento, pela confissão pública de pecados, por abranger todos os pecados e não apenas faltas específicas, por ser aplicado tanto a judeus quanto a gentios e por servir como preparação para o reino de Deus. Também se distinguia do batismo cristão posterior, que estava diretamente ligado à fé em Jesus Cristo e ao dom do Espírito Santo. [Salmond, 1906]
<Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – janeiro de 2021.