E aconteceu que, naqueles dias, Jesus de Nazaré da Galileia veio, e foi batizado por João no Jordão.
Comentário de Stewart Salmond
(9-11) O BATISMO (cf. Mateus 3:13-17; Lucas 3:21-22). Este trecho trata do batismo de Jesus, que marcou sua ordenação para o ministério público. Nesse evento, o ministério de João alcançou seu ápice. Foi um acontecimento tão importante que todos os evangelistas o registraram—João, de forma parcial e indireta (João 1:29-34), e Mateus com mais detalhes. Marcos, por sua vez, apresenta um relato breve, mas vívido e circunstancial, mencionando o tempo, o local e o resultado.
naqueles dias – refere-se ao período em que João anunciava a vinda do Messias e batizava o povo. Lucas 3:23 nos diz que Jesus, “quando começou a ensinar, tinha cerca de trinta anos de idade”. Essa era a idade estabelecida pela Lei Levítica para o início do serviço de todo levita que “viesse para exercer o ministério e carregar fardos na tenda da congregação” (Números 4:43, 47).
Nazaré da Galileia é mencionada como o lugar de onde Jesus veio e onde ele havia residido até então, em reclusão e humilde obediência. Marcos não menciona Belém nem os relatos da infância de Jesus, pois isso não era necessário para seu propósito. Nazaré nunca foi uma cidade importante e não aparece no Antigo Testamento nem nos escritos de Josefo. Ficava em uma das colinas calcárias do Líbano, a cerca de 480 metros de altitude, em uma área isolada entre montes, distante das rotas comerciais principais, mas próxima de cidades relevantes como Jerusalém, Cafarnaum e Tiberíades. Apesar de seu isolamento, Nazaré não era tão afastada a ponto de impedir contato com a intensa vida do norte de Israel.
batizado por João no Jordão – literalmente, “dentro do Jordão”, uma expressão única no Novo Testamento, sugerindo que o batismo ocorreu por imersão. A localização exata do batismo de Jesus é muito debatida. As tradições das igrejas latina e grega concordam que ocorreu perto de Jericó, mas diferem quanto ao local exato. A tradição da Igreja Grega o associa a um local dois ou três quilômetros abaixo do ponto indicado pela tradição latina. João menciona que João Batista batizava em Betabara (ou Betânia) além do Jordão e também em Enom, perto de Salim (João 1:28, 3:23). Por isso, alguns sugerem que o batismo ocorreu a um dia de viagem de Nazaré, a nordeste do Poço de Jacó, próximo ao antigo vau de Sucote, ou em um vau mais ao sul, perto de Jericó. Col. Conder localiza Betabara, mencionada em João 1:28, no vau Abara, ao norte de Beisã, e sugere que a leitura “Betânia” poderia indicar um local próximo a Basã. No entanto, isso é apenas conjectura. Quanto a Enom e Salim, embora Eusébio e Jerônimo mencionem que Salim ficava a cerca de doze quilômetros ao sul de Escitópolis, a localização exata de ambos ainda é desconhecida.
A submissão de Cristo ao batismo de João levou alguns a questionarem sua impecabilidade. Como alguém sem pecado poderia buscar um batismo de arrependimento? Como alguém sem pecados a confessar poderia participar de um ritual que exigia confissão e estava associado à remissão dos pecados? Essa dúvida só teria fundamento se o batismo de João se limitasse à confissão e ao perdão dos pecados. No entanto, seu significado era mais amplo, pois estava diretamente ligado ao reino de Deus e à preparação para ele. Cristo veio estabelecer esse reino entre os homens, e o batismo foi o ato público de sua dedicação total a essa missão. Com ele, Jesus se separou da vida privada que levava como judeu comum e assumiu oficialmente seu chamado messiânico, ao qual tudo o mais deveria ser subordinado. Além disso, ao sujeitar-se à lei comum do crescimento em seu ser físico, intelectual e moral, ele deveria avançar de um estágio de perfeição santa para outro no cumprimento dessa vocação. E essa ordenança significava sua consagração a uma tarefa moral que exigia uma obediência cada vez mais profunda, um progresso espiritual sempre crescente e uma vitória cada vez maior sobre tudo o que pudesse competir com a vontade de seu Pai ou comprometer os interesses do seu reino. [Salmond, 1906]
<Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – janeiro de 2021.