Romanos 1:17

Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus de fé em fé; como está escrito: O justo viverá pela fé.

Comentário de David Brown

Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus. Embora o significado desta expressão grandiosa, “A JUSTIÇA DE DEUS,” se desdobre à medida que avançamos no argumento desta Epístola, é útil esclarecer desde o início o que entendemos por ela. Primeiro, não se refere à ‘retidão’ ou ‘clemência’ de Deus como um atributo de Sua natureza, ou uma característica de Seu governo moral (como Orígenes e Crisóstomo entre os pais da Igreja interpretaram, e, com certa modificação, Osiander, o reformador; e em nossos dias Hofmann, em seu ‘Schriftbeweis’). Tudo o que o apóstolo diz sobre esta “justiça” em seu argumento refuta essa interpretação. Portanto, essa justiça deve significar a justiça que Deus provê para os homens, ou que Ele concede aos homens ou que Ele aprova nos homens. Embora essas ideias sejam distintas entre si, no presente caso elas se complementam e pressupõem uma à outra. O sentido predominante, contudo, talvez não seja tanto uma “justiça divinamente provida e concedida” (como Beza e outros interpretam), mas uma “justiça divinamente aprovada e aceita” (como Lutero, Calvino, Fritzsche, Tholuck, entre outros). Veja, por exemplo, Romanos 3:20 (“justificados perante ele”); Gálatas 3:11 (“justificado perante Deus”); Romanos 2:13 (“justo perante Deus”); e 2Coríntios 5:21 (“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”).

Em segundo lugar, não significa uma “justiça implantada e inerente operada nos homens pela graça divina.” Esta é a interpretação defendida pela Igreja de Roma (Canon. et Decret. Conc. Trid.: Decr. ‘De Justificatione,’ 6:7), embora Estius expresse uma doutrina diferente sobre Romanos 2:12. Essa visão também foi sustentada por Grotius e pelo partido Remonstrante (ou Semipelagiano) na Igreja Holandesa; e, atualmente, é defendida [séc. 19] por um grupo na Igreja da Inglaterra, liderado por Pusey, que considera essa doutrina como sendo da própria Igreja Anglicana, assim como da Igreja de Roma. Alguns protestantes, ainda que normalmente ortodoxos, ao acompanharem essa ideia, acabam abrindo mão de um ponto central do Protestantismo. Em oposição direta a todas essas visões, o ensino desta grande Epístola afirma que “a justiça de Deus” é uma justiça “creditada” ou “imputada a nós”, baseada na obra completa de Cristo em Sua encarnação, ou em “Sua obediência até a morte, e morte de cruz”, em nosso favor.

O versículo citado acima – “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que NELE fôssemos feitos justiça de Deus” (2Coríntios 5:21) – não pode significar outra coisa senão que o fato de o Imaculado ter sido feito pecado por nós é o que nos dá, aos que cremos, uma posição de justiça diante de Deus. E já que o “pecado” que Cristo foi “feito” por nós certamente não se refere a qualquer pecado pessoal Dele, nem a pecado infundido Nele, mas simplesmente a pecado imputado a Ele, assim também a “justiça de Deus,” na qual o crente é “feito nele,” não é uma justiça pessoal do crente, nem uma justiça infundida ou operada nele, mas uma justiça simplesmente imputada a Ele. Aliás, mesmo sendo imputada a nós, é ainda NELE que somos assim constituídos justos. E é verdade — uma verdade fundamental — que a união entre o crente e Cristo é real e vital, tornando-os um só espírito (1Coríntios 6:17), de modo que é impossível que o crente justificado, desde o momento dessa união, seja algo além de pessoalmente e inerentemente justo ou verdadeiramente santo. Mas isso não constitui a justiça justificadora — não é isso que o torna “a justiça de Deus.” Tudo isso se desdobrará à medida que prosseguimos no argumento do apóstolo.

Assim, esta é “a justiça de Deus” que constitui o tema principal desta Epístola. A seguir, ela é revelada —

de fé em fé. Algumas das várias interpretações atribuídas a esta frase algo difícil (cuja enumeração Estius faz cuidadosamente) podem ser descartadas de imediato, por serem pouco relevantes, como: “da fé da Lei para a fé do Evangelho”; ou, “da fé do Antigo Testamento para a fé do Novo”; “de uma fé geral no Evangelho para uma fé que o aplica a si mesmo”; “da fé do pregador para a fé do ouvinte”; “da fé do Deus que promete para a fé do homem que crê.” Mas existem três outras interpretações que merecem maior atenção.

Primeiro, “De um grau de fé para outro – de uma fé mais fraca para uma mais forte – de um nível inferior para um superior.” (Assim pensaram alguns dos Pais da Igreja, e, entre os modernos, Erasmo, Lutero, Melancton, Calvino, Beza, Grotius, Estius, Meyer, etc.) Mas essa visão nos parece problemática, pois introduz um elemento estranho ao argumento do apóstolo, que não trata de estágios progressivos de fé, mas exclusivamente da fé em si como o caminho designado para receber a justiça de Deus.

Segundo, “Assim como começa na fé, termina na fé – em outras palavras, é toda fundamentada na fé.” (Assim afirmaram OEcumenius entre os Pais; e, entre os modernos, Bengel, Alford, Hodge, Wordsworth.) Porém, isso torna a afirmação em uma só, enquanto o apóstolo parece deliberadamente dividi-la em duas, e conecta as palavras “justiça” e “fé,” enquanto o apóstolo aparenta querer separá-las.

Terceiro, e essa é a que adotamos sem hesitação: Observemos que as palavras aqui traduzidas como “de fé” [ek pisteoos], onde quer que apareçam nesta Epístola, significam “pela,” ou “através da fé;” e são traduzidas assim pelos próprios tradutores no seguimento deste mesmo versículo – “como está escrito. O justo viverá pela fé.” Da mesma forma em Romanos 3:30; 4:16 (“de” ou “pela fé”); 5:1; 9:30,32 (“pela fé”); 10:16. Isso nos parece decisivo para traduzir a frase assim: “A justiça de Deus é revelada [como] ‘de’ ou ‘pela fé, para fé’.” Mas o que significa “para fé”? Pode significar “para aqueles que creem”, como Tholuck, Conybeare, Philippi; ou (o que preferimos) “visando a fé”, como essa mesma preposição é traduzida em Romanos 1:5 deste capítulo, e em Romanos 6:16; 6:19; 8:15; 10:10; 13:14. Assim, DeWette, Olshausen, Fritzsche (cujas observações merecem atenção especial), Stuart, Scholefield, Bloomfield, Jowett. Se isso tiver menos peso (diz o último crítico), ainda está mais de acordo com o estilo de Paulo do que as explicações anteriores e pode ser defendido pela citação de Habacuque, que mostra que o verdadeiro ponto de destaque da passagem não está em “para fé,” mas em “de” ou “pela fé.”

como está escrito (em Habacuque 2:4): O justo viverá pela fé. Isto é exatamente como no hebraico, exceto que lá está “pela sua fé”. A Septuaginta traduz como “viverá pela minha fé” – provavelmente significando “fé em Mim” – [lendo, sem dúvida, y (yodh) em vez de w (waw)]. As palavras do profeta significam, ou “O justo (ou o justificado) pela fé viverá,” ou “O justo viverá (ou ‘terá vida’) pela fé.” Este último parece claramente ser o que tanto o profeta quanto o apóstolo querem dizer ao citá-lo. De fato, de acordo com o argumento e a terminologia desta Epístola, dizer que “o justificado pela fé viverá” é quase um truísmo, pois “ser justificado” e “viver” não são, no sentido do apóstolo, causa e efeito, mas apenas duas facetas de uma mesma “vida de justificação.” Vale acrescentar que esta máxima de ouro da teologia do Antigo Testamento é citada três vezes no Novo Testamento: aqui; em Gálatas 3:11; e em Hebreus 10:38 – mostrando que o caminho do Evangelho de “VIVER PELA FÉ” não subverte ou altera o método antigo, mas, ao contrário, o retoma e o desenvolve. [Jamieson; Fausset; Brown, 1866]

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Todas as Escrituras em português citadas são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio, e Marco Teles, com adaptação de Luan Lessa – janeiro de 2021.